É nessa parte que o Brasil ainda está bem longe de uma Europa, por exemplo. Se estivéssemos lá certamente seria possível viver apenas da banda, pelo menos enquanto estivéssemos em tour. Aqui cada um tem fazer a sua correria e não dá paradedicar todo o tempo que gostaríamos ao Questions. Mas mesmo assim tentamos trazer coisas do nosso trabalho para abanda: eu trabalho há muitos anos com edição e finalização de vídeo, o batera Duzinho e o vocal Edu também atuam nessa área. O Edu tem também um trampo de artista plástico que você pode ver aqui: http://www.myspace.com/revolback. Já o Helinho é jornalista e trampa com isso e o Pablo Lucente é roadie.
Nessa jornada árdua de 9 anos no underground, vocês com certeza ja viram muitas bandas boas surgirem e ficarem pro caminho. Então eu aproveito e deixo duas pergunas relacionadas. Dentre as bandas que viram acabar, existia alguma que realmente tinha potencial para chegar num nível legal e a segunda, se alguma vez o Questions esteve numa situação de estar a ponto de deixar de exisir.
Cara cada dia é uma luta e sempre existem um milhão de motivos para desistir. É sempre mais fácil ficar acomodado, aceitando tudo o que a vida te impõe sem tentar fazer nada a respeito, por isso vou te dizer que passamos por momentos difíceis como qualquer outra banda. Mas somos teimosos o suficiente para continuar acreditando que todo esse esforço vale à pena e temos na cabeça ainda muitas metas a cumprir. Eu não me arrependo e tenho certeza de que os caras também não. Sobre bandas boas que acabaram, posso lembrar rápido de duas do interior de SP: o Prole de Americana era foda e o Godzilla de Mogi Mirim. Parece que o Godzilla voltou, então vai um salve para o Danilo e cia!
Vocês carregam a bandeira do Hardcore Lifestyle com muito orgulho. Conte-nos um pouco sobre o prazer e a dor de ser estar até o pescoço nesse tal de hardcore.
Brasil: um país onde mandam o samba, o axé, o sertanejo e o funk. Rock já é minoria, hardcore então nem se fala! Se você está pensando em 'ser famoso', montar uma banda para ter groupies, definitivamente essa não é a real. É aquela coisa, os poucos que gostam, gostam de verdade. Por que a música e as idéias traduzem perfeitamente um espírito de revolta e indignação com as injustiças desse mundo. De qualquer forma, aqui em SP hoje está muito melhor do que quando começamos há 9 anos, tem uma molecada se mexendo para fazer as coisas acontecerem, temos festivais regulares, uma casa estabelecida (Hangar) e outras pipocando e se firmando. E, à propósito, nada contra o funk, etc, o problema é as pessoas serem bombardeadas o tempo com os 'créus' da vida. Tem bem mais do que isso para se descobrir por ai.
No ultimo álbum vocês contaram com a participação do Iggor Cavalera na faixa Conscience, o que, com certeza, é a realização de um grande sonho de qualquer banda que tenha cresicido escutando o cara no Sepultura. Vocês não tiveram pudor nenhum em espalhar aos 4 ventos toda essa satisfação e orgulho de poder ter feito esse trampo com ele, então, pergunto: Como que você ve esse lance da "paixão" atualmente? Você sente que essa molecada que esta começando agora tem essa mesma paixão?
Em muitos sentidos, acho que não dá para comparar o tempo em que a gente era moleque com os dias de hoje. Muito poucas bandas tinham a
oportunidade de ter o seu trabalho registrado. Então cada vinil que saía era uma grande vitória para a banda e um objeto de adoração mesmo para a molecada. Até o ritual de ouvir música mudou completamente. Se hoje você carrega não sei quantas mil músicas num ipod, na época você tinha que virar a bolacha depois de algumas faixas, então a relação das pessoas com a música mudou também. Isso tem coisas ruins e boas, por um lado tudo é mais descartável, já que está tudo fácil para você pegar de graça, mas, ao mesmo tempo, a possibilidade de comprar instrumentos, gravar e divulgar o seu material ficou mais acessível para todos.
Qual a relação do Questions com a internet?
Usamos e abusamos! Uma ferramenta muito poderosa que tentamos usufruir ao máximo, e também muito boa para saber o que está rolando por ai. Nesses tempos, por exemplo, recebemos uma mensagem de um cara na Estônia. Ele viu o nosso show e isso o incetivou a montar a sua banda. Realmente uma coisa praticamente impossível de acontecer sem internet.
É sabido que o público brasileiro tem características ímpares e que todas as bandas que visitam o país sempre o exalta, mas me parece que no hardcore essa diferença não é tao acentuada - principalmente em relação aos sulamericanos em geral. Então, quais as principais diferenças que você citaria entre o publico brasileiro e o gringo?
Aqui é foda mesmo. Tocamos em vários lugares do Brasil e o público costuma ser animal. Mas nesse rolê da Europa vimos um pouco de tudo: tem alguns lugares em que a galera é mais paradona mesmo, principalmente nos países mais ricos. Já mais para o leste, como na Romênia e na Bulgária, o bicho pega igual aqui. Mas mesmo num show em que o pessoal não agitou tanto, sempre acontecia da galera ficar pedindo mais músicas no final, nunca queriam deixar a gente sair do palco..
Fale-nos sobre o fantástico documentário 'Botinada", no qual você foi responsável pela edição.
Aqui no Brasil ainda estamos engatinhando na produção de documentários sobre música independente, portanto qualquer iniciativa nesse sentido já é legal. De cara achei muito importante que alguém se dispusesse a contar os primórdios do punk no país. O diretor Gastão Moreira procurou a minha produtora Toro quando ele já tinha captado mais de 50 entrevistas. Então ele tinha horas e mais horas de depoimentos, um monte de imagens escaneadas com os jornais, revistas, cartazes e flyers da época e reunido tudo que era possível de vídeos e discos. Ao todo foram 4 anos em que mergulhamos fundo nesse material até chegar na montagem final. Para mim foi muito interessante, não só pelo lado profissional, mas também por ser um assunto em que estou envolvido desde moleque. Foi um projeto que eu tenho muito orgulho de ter participado.
Atualmente vocês fazem parte do cast da 3 Mundos, que pra quem não sabe é do Alyand, do Dead Fish. Gostaria de saber como que esta sendo essa parceria. Uma colocação importante - como é legal ver um cara como o Alyand, mesmo com o relativo sucesso comercial alcançado com o Dead Fish, manter as raízes no underground, inclusive com o proprio Dead Fish fazendo parte do cast.
Com certeza o Dead Fish é uma referência de integridade e corência no cenário brasileiro. Até por isso a nossa aproximação aconteceu
naturalmente. Nos identificamos com a maneira do Alyand conduzir o agendamento dos shows, tudo sempre bem conversado e transparente, para nós está muito bom.
Quais os planos para um novo trabalho de estúdio?
Já fechamos a maioria das músicas, gravamos algumas demos, devemos entrar no estúdio logo. Acho que o disco sai ainda no final do primeiro semestre.
Com a facilidade que existe hoje, em relação ao passado nem tão distante, na produção tanto de áudio com de vídeo, e com você trabalhando nessa área de filmagens, qual a possibilidade de termos um DVD do Questions? Existem planos relacionados a esse assunto?
Com certeza vamos fazer. Mas não decidimos exatamente o que colocar nele, pois temos muito material de várias fases da banda. Só da tour na Europadá para fazer um documentário com umas 3 horas! Mas essa é uma meta, vamos nos concentrar nisso mais para frente.
O El Grito deixa o espaço para falarem o que quizerem. Manda ver!
Valeu Júlio! Muito obrigado pela oportunidade. O Questions está ai há tantos anos mantendo a mesma pegada, lutando contra o conformismo e a
acomodação, que isso possa incentivar a molecada a correr atrás dos seus objetivos. Como sempre dissemos desde o começo: união e respeito!
Contatos:
http://www.questions.com.br
http://www.fotolog.com/questionscrew
http://www.myspace.com/questions
http://www.youtube.com/user/questionstv
Nós do El Grito agradecemos muito esse entrevista, que foi motivo de muito orgulho para nós conseguí-la pois, assim como vocês, estamos na luta e também enfiados até o pescoço nesse tal de Hardcore Lifestyle, e com certeza o Questions hoje é uma das grandes bandas do cenario hardcore nacional. O site El Grito deixa as portas abertas para o Questions.
Muito obrigado! |